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domingo, 13 de fevereiro de 2022

FAIXA A FAIXA: Voodoo Shyne sem rótulos



English Pale Ale

A segunda edição do Faixa a Faixa do SP&BC só poderia ser do músico paulista Voodoo Shyne, que acaba de lançar seu mais novo petardo, o excelente Love, martyrs & archetypes, o quarto da discografia. Então, vamos abrir a geladeira para procurar qual cerveja combina com o rock cada vez mais variado de Voodoo. Afinal, ao longo das 9 faixas encontramos hard, new wave, gótico, enfim, tem para todos os gostos.

Voltando. A escolhida da vez foi uma English Pale Ale porque, realmente, o som pede uma breja com características inglesas, tal qual algumas faixas trazem esse clima britânico. Com aroma de malte que pode lembrar caramelo e amargor, a EPA se mostrou a perfeita para a ocasião.

Naturalmente que para esse quadro trocamos uma ideia com o próprio que, evidentemente, nos contou outros detalhes sobre o trabalho. E já começou esclarecendo sobre essa pegada de diversidade sonora apontada no início: "A ideia principal é experimentar diferentes sonoridades dentro do rock. São décadas de evolução do estilo e seria um desperdício não experimentar cada vertente do rock".

"O disco foi inteiro gravado por mim", continua o baixista/vocalista/guitarrista/baterista/compositor - ufa! -, "e pelo meu amigo, Estevan Sinkovitz (guitarra, baixo e violão, banda Marrero). Além da participação de outro grande amigo, Eklon Eleutério (piano)".

A maioria das canções, sete, por sinal já resenhados no blog, saíram como singles antes do disco ao longo do último ano e, segundo o multi instrumentista, foi a "melhor opção para valorizar cada som". Dessa maneira, os fãs podem "revisitar música por música, entendendo o contexto todo do álbum". Essas "antigas" foram remasterizadas para o lançamento.

A obra não será lançada no formato físico ficando restrita ao digital somente. Contudo, é viável apostar apenas nas plataformas? "O retorno financeiro das plataformas digitais, principalmente para artistas independentes, é ínfimo", explica ele. "Mas a questão nunca foi a grana, e sim o amor em compor música". Voodoo continua dizendo que a de vídeo pode ser melhor explorada, no entanto "a vantagem é que pode-se ouvir as músicas inteiras, mesmo não tendo assinatura", o que não acontece com as musicais.

FOTO: Divulgação

Faixa a Faixa - Love, martyrs & archetypes

Antes de partimos para o prato principal do texto, é bom frisar que a produção ficou por conta do próprio Voodoo e de Estevan Sinkovitz, este que também o mixou e masterizou no estúdio Lichen Ideias Sonoras. Chega, então, de papo. Vamos saber o que o criador pensa e sente sobre suas composições. Com a palavra Voodoo Shyne.

Trap of love - "Introdução instrumental em que o baixo e os sintetizadores recitam um mantra" (N. do R.: uma das duas até então inéditas).

Unique - "Um rockão guiado pelo riff de baixo. 'Não somos tão únicos quanto podemos imaginar'" (N. do R.: a minha favorita. Tente ouvir sem que o refrão, esse citado pelo artista, fique grudado como chiclete na sua cabeça).

A perfect match - "Provalmente o som mais hard rock do disco. 'Uma paixão de arrebatar com um refrão bem marcante'" (N. do R.: De fato, é a que mais remete aos lançamentos antigos, mais hard rock).

Love corrupts myself to death - "Rock' n' roll com uma pegada punk. 'Mesmo o amor pode te levar ao infortúnio'" (N. do R.: Outra de refrão marcante).

Through her womb - "Soa como Black Sabbath encontrando Pink Floyd em Planet caravan, e retrata a visão de fora de um homem sobre a maternidade" (N. do R.: Diria que o encontro poderia se dar em Run like hell com menos velocidade).

Instinct in me - "Um rock clássico com uma atmosfera new wave. 'Não se pode explicar os instintos, mas também não se pode ignorá-los'" (N. do R.: Mais new wave pós-punk).

Fright (People) - "O som mais pesado e estranho do disco (N. do R.: A mais pesada, porém nada de estranha. Alice Cooper fase fim dos anos 1.980 um pouco mais contido).

A.L.L. - "Um pouco de amor para nos trazer de volta à luz" (N. do R.: a outra nova)

Promises - "Um punk rock setentista com um refrão pra cima"
(N. do R.: Para se divertir. Fecha com chave de ouro).

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O início do metal no Brasil contado pelas plataformas digitais - parte 1

Um dos LPs disponíveis do Made é o debut


Double Ipa

Certo dia, buscava algumas músicas para uma playlist na plataforma de streaming que uso e encontrei várias bandas nacionais que começaram o metal nacional, lá no início dos anos 1.980. Naquele momento, lembrei do meu livro-reportagem Som Pesado e pronto, surgia mais uma pauta do SP&BC. Afinal, muitos não sabem das preciosidades que lá existem. Ou qual seria o motivo de alguns nomes não terem nem mil fãs? Assim, vamos fazer a garimpagem!

Para me acompanhar nessa empreitada, escolhi uma bebida de gala, uma Double Ipa. Cerveja com teor alcoólico entre 8 e 10%, ela é um estilo perfeito para quem curte amargor e aroma de lúpulo. Ou seja, é uma delícia ouvir nossos primeiros heróis saboreando um estilo que também é denominado Imperial Ipa. Como esse trabalho é divido em partes, para não ficar muito longo, temos a chance de experimentar outras brejas para harmonizar com os sons.

Se encontrar alguém não citado aqui, não se acanhe, o blog está aberto a comentários e sugestões. Evidentemente, nem todos aqueles que começaram o metal no Brasil estáo disponíveis. Essa primeira parte estaciona em 1.985, ou nas bandas que lançaram seu debut até esse ano. Finalmente, só considerando as plataformas musicais, nada das de vídeo.

E, nada melhor do que lembrar de quem plantou a semente. Mesmo não sendo necessariamente metal, o Made in Brazil, pela exposição da época, é tipo um marco zero. Da banda de Oswaldo Vecchione, que editou seu primeiro álbum autointitulado em 1.974, não encontramos a discografia completa, mas dá para se divertir bem com cinco álbuns de estúdio e dois ao vivo.

A Patrulha do Espaço, dona do primeiro disco de rock lançado de maneira independente no país, também é um nome em que não se encontra disponível todos os seus trabalhos - verdade seja dita, nem o Black Sabbath tem. Questão de direitos autorais. Ainda assim, os cinco primeiros  estão lá, o que inclui o citado que dá nome ao grupo, de 1.980.

O primeiro LP do heavy metal nacional saiu em 1.982 assinado pelo Stress, de Belém (PA). E essa preciosidade homônima, claro, está no perfil dos paraenses, além de todos os outros, inclusive o Ao vivo na Amazônia.

O primeiro LP independente

A Baratos Afins, uma loja da Galeria do Rock que virou selo e lançou vários artistas, planejava a coletânea SP Metal - veja um pouco mais a frente - com bandas novas. Entre as que disputavam um lugar ao sol estava o Harpia, que era o grupo de maior repercussão na época. Assim, foi natural que o quarteto ganhasse seu próprio EP solo. E, naturalmente, o clássico A ferro e fogo (1.985), do hit Salém, a cidade das bruxas, está aqui, bem como 3.6.9 H.A.R.P. (2.017).

A Chave do Sol foi outro nome importante da cena da primeira metade da década de 1.980. Localizamos por aqui o primeiro EP autointitulado, de 1.984.

Coletâneas

Naquela época saíram várias coletâneas com a finalidade de baratear a produção. Algumas são facilmente encontradas nas plataformas. Como os dois volumes da SP Metal lançados, respectivamente em 1.984 e 1.986. Nos LPs, com duas músicas cada se dividiram oito bandas: Avenger, Centúrias, Vírus e Salário Mínimo, no volume 1, enquanto que Santuário, Korzus, Abutre e Performances, figuraram no segundo.

Além da coletânea, o Centúrias, primeiro grupo de heavy metal de São Paulo, nascido em 1.980, disponibiliza seus dois trabalhos, Ninja (1.986) e Última noite (1.988). O Salário Mínimo aparece também com Beijo Fatal (1.987) e Simplesmente Rock (2.009).  Enquanto que o Avenger - não confundir com o alemão que originou o Rage - não conseguiu passar dos dois sons na coletânea.

Coletânea que marcou época
Já o Vírus, a primeira que usou fumaça de gelo seco, explosões e outras "pirotecnias" tão comum atualmente, expõe um problema peculiar de nossa tecnologia moderna. Os caras lançaram somente um álbum em 2.019, Contágio, que está disponível, além da participação em SP Metal I. Na pesquisa surgem inúmeros títulos em seu "perfil", até por ter vários Vírus espalhados pelo mundo. Cuidado!

Abrindo uma exceção para completar o SP Metal, já que se trata de 1.986, o Korzus, de longe, foi quem conseguiu melhores resultados, então sua discografia é facilmente encontrada. Já as demais do play, infelizmente, não passaram desse registro
 
Do Rio de Janeiro saiu o split-LP Ultimatum, em 1.984, com Dorsal Atlântica e Metalmorphose. O lado do último está disponibilizado, assim como vários outros títulos do Metalmorphose. No entanto, a Dorsal Atlântica não está nas plataformas digitais, infelizmente.

Finalizando essa primeira parte, o split de Belo Horizonte, com o Sepultura e com Bestial devastation, e Overdose, Século XX, de 1.985. Sepultura nem precisa dizer. Do Overdose há alguns discos disponíveis. Divirtam-se!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

10, 20, 30... Especial 1.991


 

Catarina Sour

Nem sempre é fácil a 10, 20, 30... devido às suas regras. Afinal, nem todas as bandas possuem álbuns lançados no exato intervalo de 10 anos. Como alguns grandes nomes não se enquadram, porém assinam obras clássicas e, aliado a uma busca em arquivos por resenhas que saíram nas páginas da saudosa revista Valhalla, SP&BC volta 30 anos no tempo para falar de Guns n' Roses em seu projeto mais ambicioso até então, os Use your illusions partes 1 e 2, a banda Taffo e seu maravilhoso Rosa branca e Skid Row com seu Slave to the grind.

Para acompanhar, um estilo criado no nosso estado de Santa Catarina e o primeiro brasileiro aceito pelo BJCP (Beer Judce Certification Program), a principal certificação mundial para juízes de cervejas e bebidas fermentadas, a Catarina Sour.

A breja não tem um teor alcoólico tão alto, o ABV vai de 4% a 5,5%, e apesar de levar fruta em sua composição - pode-se encontrar de pêssego, maracujá, etc - é favor não confundir com a Fruit Beer. A acidez é moderada. Como o nome indica, é azeda, mas vai bem no verão e ajuda a refrescar curtindo esses petardos no volume máximo. Vamos então curtir esses textos antigos, relembrando os tempos da citada Valhalla!


Guns n’ Roses - Use your illusion I

Número um da parada logo no dia do lançamento. Precisa mais? É claro que no instante em que se chega ao mercado, o fã não conhece a fundo a obra do seu artista favorito (N. do R.: resenha do início da década de 2.000, portanto bem diferente de hoje, por conta da Internet), então a decepção ganha a chance de aparecer. Contudo, só o tempo é capaz de “colocar os pingos nos ‘i’”, conforme o dito popular. Assim, está explicado o porquê de Use Your Illusion I figurar nesta seção (Classic). Evidentemente, o Guns n’ Roses marcou época com o insuperável Appetite For Destruction (1.987) e isso levou a febre que culminou nessa megalomania de dois discos duplos – lembre-se que era o tempo do bom e velho vinil – editados no mesmo dia. Para se ter uma ideia, o vocalista Axl Rose chegou a passar a noite de Natal no estúdio com um amigo pela obra. Pouco depois, em janeiro, a banda fecha as duas noites mais pesadas do Rock In Rio II (em 1.991). Não sem antes uma mudança na formação: Steven Adler cede o banquinho para Matt Sorrum (ex-The Cult). Aliás, ele e o tecladista Dizzy Reed estrearam no festival carioca. Axl ainda colocou sua, então, mulher, Stephanie Seymour (quatro aparições na revista “Playboy” nos anos 1.980), como estrela dos clipes Don’t cry e November Rain. Não se pode afirmar que se trata de um título completamente perfeito, pois há faixas desnecessárias. Em contrapartida há a participação do mestre Alice Cooper em The garden. Live and let die (do ex-Beatle Paul MacCarntey), Perfect crime, Bad obession e Right next door to hell são algumas pedradas aqui encontradas que fazem a diferença. Vamos para a parte dois da história... (VA)


Guns n’ Roses - Use your illusion II

Se chegar ao topo da parada é algo difícil de se ver a qualquer instante, imagine ser primeiro e segundo com dois discos lançados no mesmo dia, no caso, em setembro. Fato inédito na história do rock. Fenômeno! Não existe outra palavra para explicar o que esses norte-americanos aprontaram na cena do hard rock. Excluindo daqui os temas que somente tamparam buraco, como My World, por exemplo, e juntando com as ótimas faixas da primeira parte daria um disco mais do que sensacional. Ainda dava para disfarçar lançando as músicas limadas até Axl resolver, enfim, soltar o tal Chinese Democracy. Nem por isso pode-se classificá-lo abaixo da média, absolutamente, afinal agora você está lendo-o na Classics. You could be mine foi trilha do filme Exterminador do futuro II, na qual o atual (N. do R.: então) governador da Califórnia (EUA) e estrela da película, Arnold Schwarzeneger, participa do clipe, e também há Civil war, Shotgun blues, Estranged, com um vídeo pra lá de esquisito, e Pretty tied up, além do cover Knockin’ on heaven’s door, de Bob Dylan, que encheu o saco de tanto que tocou, e de uma versão com uma letra diferente para Don’t cry. Um pouco depois, em novembro, Izzy Stradlin deixa uma das guitarras dando espaço para Gilby Clark. A turnê rendeu 192 shows em 27 países diferentes – e mais uma passagem pelo Brasil em dezembro de 1.992. Atualmente (na época da publicação), Slash (guitarra), Duff McKagan (baixo) e Sorum estão no Velvet Revolver. Use Your Illuision, ambos os discos, ajudaram a escrever a boa excepcional história do Guns N’ Roses. (VA)


Taffo - Rosa branca

(N. do R.: ok, eu sei que ele é do fim de 1.990, mas abrimos uma exceção). Em 1985 a Baratos Afins soltava o primeiro disco da banda dos irmãos Busic, Ivan, bateria e vocal, e Andria, baixo e vocal, o Platina. Não durou muito, infelizmente. Em uma próxima caminhada, esses dois se uniram ao guitarrista Wander Taffo, ex-Radio Táxi, e ao tecladista Marcelo Souss para formar uma das melhores bandas de hard rock do Brasil: Taffo. Esse LP, uma espécie de continuação do primeiro álbum, Wander Taffo (1.989), apesar de este estar mais para ser um solo do guitarrista, e que saiu pela Epic, então subsidiária da CBS, é obrigatório! O clipe de Me dê sua mão, talvez o maior hit do grupo, ganhou uma versão exclusiva para a MTV que cansou de exibi-lo na época do Rock In Rio II. Olhos de neon, Vento sul e Sonhos e rock’n’roll são outros destaques. Depois, Wander reformulou o conjunto não obtendo o mesmo resultado. Atualmente, Ivan e Andria estão no Dr. Sin. (Wander Taffo faleceu em 14 de maio de 2.008 vítima de uma parada cardiorrespiratória). É muito mais do que um simples documento, é histórico! (VA)


Skid Row - Slave To The Grind

É comum muitas bandas iniciarem suas carreiras fazendo som pesado e com o passar dos anos irem tirando o pé do acelerador, suavizando sua obra. Pode-se dizer que com este play aconteceu justamente o contrário, pois o Skid Row se mostrou um grupo de hard em seu primeiro LP homônimo (1.989) e aqui escancara um trabalho que beira o metal em muitas partes. É um hard/heavy. Lógico que as baladas In a darkned room e Wasted time, esta sobre drogas, caíram no gosto das FMs da época, mas e Get the fuck out, que quase causou uma espécie de censura ao álbum? Lembro-me até hoje que as resenhas da época em jornais diziam que a bolacha abria “com o velho truque do heavy metal, uma música que começa lentinha e depois vira uma pauleira”, se referindo a Monkey business. Graças a Slave to the grind, primeiro lugar nas paradas, o SR foi uma das atrações principais do saudoso Hollywood Rock, em 1.992, sendo eleito pelos leitores da Folha de S. Paulo como o conjunto que daria o melhor show no evento. Pena que no Monsters Of Rock, quatro anos mais tarde, o público não tenha entendido muito bem a proposta, já que foi um puta show pesado, onde tocaram Rio act, entre outras “podreiras”/rapidinhas, e o quinteto saiu vaiado mesmo assim culminando na derradeira apresentação de Sebastian Bach (vocal) no grupo. Indicado para quem acha que hair band é coisa de... Você sabe. (VA)